quarta-feira, 2 de julho de 2008

Não poderia deixar de relatar o emocionante depoimento de um amigo. Talvez isso sirva de "ALERTA" para muitos que já correm e principalmente para quem acha que basta correr, que tudo parece simples.

Este é o depoimento do Marcus (Binno) que sofreu séria lesão enquanto corria a Maratona

Divido com vocês este aprendizado para que sirva de exemplo a todos os companheiros de corrida que visitam este blog.
Ao abortar a Maratona deste ano reconheço que tirei dela mais lições que a conquista do ano passado e dividi-las certamente irá poupá-los de maus momentos.
Tudo começou bem, um dia lindo, galera animada e a alegria de ver este esporte contagiando toda a cidade.
Tocada a sirene lá fui eu rumo a conquista da minha segunda Maratona.
Tinha planos para fazê-la abaixo de 4h e 30min e estava tranqüilo em relação a isso mas ...
4km uma dor que eu conhecia muito bem, começava a dar o ar da graça em minha perna direita. Na parte externa, logo abaixo do joelho. Sim, ela, a Fíbula (popular perônio) já se manifestava empolgada, mais empolgada que eu. Eu mal podia acreditar, 3 meses de preparação sem o menor sinal dela e logo no início da prova lá estava a danada "sorrindo" para mim.
Concentro-me e começo a torcer para ser passageira ... mas não, ela insiste e cresce, cresce e no 5km acontece o que eu já esperava. A fíbula se desloca. AHHHH ! sim é dor muita dor, o suficiente para quase me jogar ao chão. Não podia acreditar.
Começo usar a terapia que conheço e já tive sucesso em uma prova de 30km em Friburgo. Acreditem, socos, muitos socos na lateral tentando empurrá-la para dentro e devolvê-la a posição original. Loucura ? sim ... mas já funcionou na prova de Friburgo do ano passado permitindo que eu a terminasse.
Mas desta vez não ... eu não acreditava que teria que abandonar a prova tão logo ali no início.
Com mil pensamentos cheguei a uma alternativa, investir tudo na perna esquerda. Loucura ? sim ... mas poderia dar certo. E lá fui eu tracionando tudo na esquerdinha mesmo sendo destro e usando a direita como se fosse uma muleta. 6km, 8km, 10km, 12km, 15km, 17km, 21km sim 21km e eu cruzo a largada da Meia com 2h e 14min. Uma injeção de ânimo. Um bom tempo "de Meia" para quem vinha praticamente em uma única perna. Mas ainda faltavam 21km e a dor só crescia.
Subida do Joá, 22km, a esquerda começa a gritar "quê isso ???" e eu respondo é subida amiga, subida e conto com você.
Um companheiro passa e me estende um gelol spray, eu aceito mas tinha que ser em tamanho de extintor pois já doía tudo da cintura para baixo.
Saio do Joá e deixo o "Lagarto de Pedra" para trás. Segurando ao máximo para não embalar na descida pois me sentia como se fosse de cristal.
26km paro em uma ambulância de apoio e peço ajuda. O médico confirma o diagnóstico e diz "Acabou amigo, acabou para você!". Agradeço a ajuda e digo que vou seguir. Ele quase me agarra e insiste em me dizer que é o fim. Eu agradeço novamente e respondo que a esquerda ainda estava viva e que precisava seguir.
Saio de lá certo que era sério mas tinha que saber onde aquilo acabaria, não ouvindo de uma pessoa, mas ouvindo do meu corpo.
Entro na reta do 27, São Conrado, e a Niemeyer se agiganta a minha frente. A faixa que o médico colocou em minha perna direita, para contem a fíbula, estrangulava cada vez mais, como ? como poderia estar ocorrendo aquilo ? simples a perna estava inchando, inchando e a dor aumentando.
Diminuo a passada, opto por não forçar a já sacrificada esquerda, afinal seria uma grande subida.
Não teve jeito, 28km, beirando o topo, sofro uma contratura muscular na perna esquerda, dou um grito de dor e não consigo mais segurar as lágrimas, era dor demais para mim. Resolvo esticar a perna no parapeito da estrada e me assusto com o que vejo. A perna esquerda evolui em contrações que a impressão que eu tive era que meu coração estava nela. Movimento bruscos e acentuados, espasmos, espasmos e nada de parar. Começo a esfregar rápido tentando interromper aquilo que além de dolorido assustava-me ainda mais. Finalmente consigo.
Um outro corredor pára e me oferece um Traumaflam, não conheço o remédio mas na altura do campeonato até amputar era válido. Começo a caminhar lentamente e quem passa por mim feliz da vida ? O Leo e amigos ! Deixo um abraço e começo a descida da Niemeyer, era hora de voltar a correr. Inicio um trote, tento segurar o embalo mas é inevitável, estava cheio de dor e conter o ritmo parecia pior. Passo pelo 29km, não tinha mais a perna direita e a coxa esquerda, mas ainda tinha a panturrilha esquerda !!! sim poderia ser uma saída. Lá vou eu ... passo pelo 29km e chego aos 30km.
Daí vem o tiro final, câimbra na panturrilha esquerda (aquela que parece que colocaram um paralelepípedo na panturrilha). Quase caio de tanta dor e vejo que a hora havia chegado. 30km. Foi o limite.
Agora sim, ouvia do meu corpo que a Maratona havia acabado. Ele me falava aos berros ! Colapso muscular esse era o diagnóstico final.
Nada de perna esquerda ou direita, a corrida havia acabado.
Senti a dor de tirar o número do peito e entregar o chip a um fiscal de prova. Aquilo parecia doer mais que as pernas, mas era o fim.
Um companheiro que me esperava no 30km fala "Valeu Binno ! Já valeu por chegar até aqui. Olhe para trás e veja o que você já deixou com uma perna só !"
Lagrimas nos olhos não podia esconder a tristeza mas no fundo, bem fundo do coração existia uma realização. A realização de ter lutado até o fim, ter usado todas as armas e todas as estratégias e não ter cedido ao grito do inimigo mas sim ao seu golpe final.
Era hora de voltar ... enfrentar a dor de uma batalha perdida (????).
Entro em um taxi e concentro-me nos motivos ... o que havia dado errado ?
E era fácil saber. Enumero-os para que vocês jamais esqueçam.
1) Excesso de peso 6 kg acima do peso recomendado;
2) Falta de musculação, abandonei a academia em nov/2007 e não voltei quando iniciei os treinos;
3) Pouco tempo de preparo, em 3 meses tive um treino irregular por conta de um resfriado e compromissos;
4) Excesso de confiança - O corpo tem memória mas ela é curta;
Acredito que alguns mais existam, mas não me apedrejem agora, ainda estou todo moído.
Gostaria apenas de dizer que não fiz tudo isso por que sou louco ou teimoso e sim apaixonado. Apaixonado por um esporte que me deixou livre da hipertensão, um esporte que me proporcionou auto estima aos quase 40 anos, um esporte que ajuda a aliviar minha hiperatividade, que me fez voltar a rir com os amigos e conhecer novos e que com certeza ainda me dará muitas alegrias !
Deixo a lição para que não esqueçam ...por mais ansiosos que estejam jamais relaxem quanto a isto.
Um grande abraço a todos e parabéns pelas conquistas.

4 comentários:

CORREDOR " X " disse...

Não Jaque, foi antes, e não era o Binno

José Capela disse...

Cara amiga,

Estive a ver o seu blog e adorei.
As fotos da meia do Rio estão lindas e tiverem o condão de recordar a minha passagem de férias em 1998, aí na cidade maravilhosa.

Vou colocar um link no meu blog de acesso ao seu.

Continuação de bons treinos e boas corridas.

Beijo

José Capela

Paulo Massa disse...

Impressionante!

Guerreirão o Binno, espero que ele esteja bem...

Com certeza temos muito a aprender com essa experiência dele.

Obrigado por compartilhar esse relato!

Abs,

Paulo Massa
http://www.e-corredor.com.br

Nikecorre disse...

Teu amigo foi um guerreiro e muito corajoso por continuar na prova, Jaque. A experiência do Binno é muito válida. Espero que ele esteja bem, se recupere o mais rápido, e volte a praticar o que ele tanto gosta: correr.

Abraço.